segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Lucky Star - Cineclube de Braga

                             

Quem anda atento ao panorama da programação cinematográfica nacional já deve concerteza ter reparado no excelente trabalho que o Cineclube de Braga tem vindo a apresentar já há mais de um ano. O projecto Lucky Star, com a benção de Frank Borzage, propõe-se dar a ver um filme todas as 3ª feiras à noite no Estaleiro Cultural de Velha a Branca. Por detrás deste projecto estão duas das pessoas que actualmente melhor escrevem sobre cinema no país, um deles inclusive tendo já colaborado com o site À pala de Walsh. Falo de João Palhares, cujos textos podem ler quer no site do Lucky Star, quer no seu blogue, Duelo ao Sol, e de José Oliveira, também cineasta, programador e crítico que há já vários anos mantém o seu indispensável blogue Raging Bull.

Há uns meses tinha escrito sobre um projecto parecido em Famalicão, o "Close Up- Observatório Cinema" dirigido pelo programador Vítor Ribeiro. Quando digo parecido não falo de estruturas de programação ou conteúdos, e sim porque ambos parecem prosseguir dois objectivos que muito me sensibilizam. O primeiro, o de descentralização da oferta cinematográfica de Lisboa, lutando pela importância que o cinema deve ter em outras cidades do país. O segundo, a luta contra a "supermercadização" do cinema, trabalhando com eventos de dimensões "humanas"que procuram colocar os filmes e os espectadores no centro da equação. Mostrar filmes para ser vistos e discutidos por pessoas (não consumidores) e levar as pessoas até aos filmes.

No caso do Lucky Star, embora não tenha tido ainda a oportunidade de assistir a uma sessão in locu (algo que espero poder fazer em breve), posso destacar já outra característica. Além das sessões organizadas, a disponibilização dos textos contextualizadores e críticos no seu site, assim como a junção dos vídeos de apresentação, permitem que a actividade de programação se expanda para o online, atingindo um número maior de pessoas. A cinefilia sem fronteiras mas dotada de um pensamento de estrutura.

Passem também no seu canal de youtube, onde estão compilados estes vídeos, pérolas instantâneas para qualquer cinéfilo, nos quais nomes como Tag Galhagher, Craig Keller, Adriano Aprá ou Pierre Risent apresentam e falam sobre os filmes escolhidos. E nem é preciso falar aqui dos filmes que compõe a programação, basta espreitar só o programa de Janeiro, ali em cima.

Do mundo para Braga, de Braga para o mundo: how lucky (star) are we?

domingo, 15 de janeiro de 2017

Primeiras palas de 2017


sábado, 14 de janeiro de 2017

Bitchy

Judá escolheu para Er, seu primogénito, uma mulher chamada Tamar. Er, primogénito de Judá, desagradou ao SENHOR e Ele feriu-o de morte.

Gn 38: 6-7 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

"Le Fils de Joseph" de Eugène Green



Não sou um conhecedor dos filmes de Eugène Green. Até agora tinha apenas visto a sua segunda longa "Le monde vivant" e dela apenas conservava a ténue memória de planos de pernas e de uma espada medieval nuns jeans. Um pouco como as imagens que guardava da primeira vez que vi "Lancelot du Lac" de Robert Bresson. Curiosamente, dessa lembrança pode extrair-se já dois traços fundamentais deste magnífico "Le Fils de Joseph". São eles a câmara sinédoque do cineasta e o gosto profanatório da História. Neste drama cómico de um jovem que procura descobrir qual a identidade do seu pai, continua esse apreço pelos detalhes expandidos que já mostram o todo - relembro aqueles planos que mostram as franjas do canapé e as suas molas, debaixo do qual o jovem Vincent espreita os flirts do seu pai biológico. Continua ainda o rigor dos enquadramentos simétricos do francês e uma preferência pela representação de tom entre o solene e o frontal. Não é a muito custo que podemos inserir estes elementos numa visão classicista da história da imagem. Em "Le Fils de Joseph" desta estética implica deve poder extrair-se também um ética de frontalidade na franqueza das personagens: aqui não existem pessoas que não digam o que pensam e da forma exacta como o pensam. Apenso a esta rectidão, Green junta a sua outra característica, a visão descentrada, profanada, de alguns episódios bíblicos. O realizador está a contar-nos a continuidade mítica de debaixo do canapé, de debaixo de qualquer reverência ou mesmo explicação psicanalítica. Como identificar os Josés, Marias, Abraãos que passeiam no Louvre, nos jardins de Luxemburgo, que escapam para o campo da Normandia como se fossem para o Egipto? Sem que a comparação tenha propósitos rigorosos, o que importa reter do gesto desta obra parece ser a possibilidade (o dever) de continuar a História inserido-a, a todo o tempo, na nossa história.

Portanto,"Le Fils de Joseph" não é reparador nem apela à reescrita. É sim um filme de evocação de uma acessibilidade que permita lançar mão de noções abertas de paternidade, de desmistificação do peso solene da literatura e do teatro, de inspiração latente das imagens que nos invocam a todo o tempo uma salvação e um sacrifício, como aquela que obceca o jovem filho que decide não sacrificar um pai, antes recriá-lo: o "Sacrifício de Isaac" de Caravaggio.

O sabor da faneca

O pai, sabia, deitava-se na cama de palha e de escassez,
já ele, emprestava o lombo ao aço indestrutível.
Da sua nave, desde pequeno que podia ver a mama da moça,
o futuro dourado com dentes podres no horizonte da fábula,
descarregar seus fluidos electrónicos,
e navegar sem parceiro no rio dos mortos.
Nas primeiras noites sentiu-se quente e capaz,
gatinho ao serviço, de miar audaz.
Nas segundas noites os ossos dos pés,
quebraram-se, caules de junquilho.
Nas terceiras noites já chovia suavemente na almofada,
e já nem festejava os golos do Manchester.
O ecrã ainda reluzia como eterna joia,
e nele procurava uma qualquer boia.

Os cais estava frios quando os pais neles punham os pés,
o que fazer com tão pouco?
As camas estão a ferver quando os filhos nelas jazem,
o que fazer com tão tanto?

Havia que rezar pedindo o cataclismo, a miséria, a cólera
como esperados frutos, esperadas flores.
O martelo do dia seguinte revolvia as vítreas entranhas,
acompanhava com um vinho de borgonha, uma arca de
prateadas delícias e o sopro gangrenado de um andar imaginado.

Oh, delicados impacientes deste mundo,
só o tempo vos trará o pleno sabor da faneca.


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Locked-in syndrome



Quando ali em baixo postei o "Breakdown", um dos episódios realizados pelo Hitchcock para a primeira season da série dele para a TV esqueci-me de duas coisas. A primeira de vos dizer pelo amor "dedeus" de arranjar uma versão decente. Segundo de vos explicar porque tiro especial prazer deste episódio. Joseph Cotten já me dá prazer que chegue, e então se estiver assim quietinho (quietinho não, padecendo, ao que parece, de um "locked-in syndrome") ainda mais. Isto porque mostra perfeitamente como o cinema metido na televisão, "those were the days," ainda podia fiar-se num  impercepítvel dedo mendinho ou numa lágrima para contar uma história. Depois porque mostra como a agitação, o frisson do suspense, nunca teve como condição essencial o movimento físico. 

The power to bind and to loose


O que mais me impressiona em "Gilgamesh", o poema da Antiga Mesopotâmia, considerado um das primeiras obras de literatura a sobreviver na nossa história, é que a sua estrutura épica, ao contrário da "Odisseia", parece sobretudo servir um propósito interior. Gilgamesh é um tirano, na cidade de Urak, e é devido à sua condição que os Deuses resolvem resgatar da pura animalidade, Enkidu, que será como um irmão para ele, um sidekick das suas aventuras. No fundo, um desdobramento de si, um reflexo que fará com que o ensimesmamento da sua posição de ditador termine em detrimento da aprendizagem que faz da condição da alteridade. É o falecimento de Enkidu, a meio de "Gilgamesh", o que faz o rei passar a temer a morte e a partir para procurar o segredo da imortalidade. Esse segredo Gilgamesh não o obtém pois ele é uma condição única presenteada pelos deuses a Utnapishtim, o sobrevivente da grande enchente que dizimou a humanidade. Mas depois deste "falhanço", Gilgamesh também não consegue o próximo objectivo, a obtenção de uma planta no meio do leito marítimo que supostamente lhe traria a juventude novamente. Ele obtém a planta mas uma serpente rouba-a da sua posse. Episódio com semelhanças ao bíblico paraíso perdido e pecado original. Esses "falhanços" contudo não perturbam o verdadeiro destino de Gilgamesh:

 The  power to bind and to loose, to be the darkness and the light of mankind. He has given you unexampled supremacy over the people, victory in battle from which no fugitive returns, in forays and assaults from which there is no going back. But do not abuse this power, deal justly with your servants in the palace, deal justly before Shamash.'

Desta forma, creio que pode dizer-se que o caminho de Gilgamesh é sobretudo interior, uma epopeia interna. Aprender a condição finita, a morte, e a importância do outro na sua alteridade, como condições para exercer aquilo que, isso sim, está à sua disposição: the  power to bind and to loose.