sábado, 18 de fevereiro de 2017

Estou a pensar numa iniciativa legislativa que proíba a lavagem de tachos onde foi cozinhado arroz após uma hora de serem utilizados. O arroz que por lá fica, só e abandonado, enrijece e depois é o costume, os interesses instalados, os lobbies, os preconceitos. Tudo isto faz com que seja muito difícil, mesmo que usemos esfregão forte e anti-corrupção, remover esses arrozes do sítio onde um dia foram felizes, de onde estão hoje instalados e apegados à mais básica das rotinas. É preciso terminar com esta pouca vergonha. Quem está comigo?

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O modo alemão de acumular riquezas

«Pois bem, é exactamente como nos livrinhos ilustrados de moral alemã: em cada casa há um Vater (pai), terrivelmente virtuoso e extraordinariamente honrado. Tão honrado que temos medo de nos chegarmos a ele. Não posso suportar as pessoas honradas que inspiram medo. Cada um destes Vater tem a sua família e à noite, reunidos todos eles, leem em voz alta livros instrutivos. Sobre o telhado da casa rumorejam os ulmos e os castanheiros. O Sol que se põe, a cegonha no telhado, tudo isto é extraordinariamente poético e comovedor.

(...)

Bom, aqui todas as famílias se encontram sob o jugo e a submissão mais completa do Vater. Trabalham como bois e acumulam dinheiro como judeus. Suponhamos que o Vater reuniu já uns tantos florins e espera legar ao primogénito o seu táler ou a sua parcela de terreno. Para isso, não dá qualquer dote à filha e esta fica para tia. Para isso vende o filho mais pequeno como criado ou como soldado, e este dinheiro é incorporado no capital familiar. Faz-se assim, acreditem-me. Procurei informar-me. E fazem tudo isto movidos pela honradez, por um exaltado espírito de honradez, até ao ponto de o filho mais pequeno, que foi vendido, estar convencido que o venderam movidos pela honradez. E isto é o ideal: a própria vítima alegra-se por ter sido oferecida em holocausto. O que acontece depois? As coisas também não correm de feição para o primogénito: há ali uma certa Amalchen à qual o seu coração de sente unido. Mas não pode casar-se porque não arrolou os florins necessários para fazê-lo. Ficam também à espera, digna e sinceramente, aceitando o holocausto com um sorriso nos lábios. Amalchen continua extenuada e fraca. Finalmente, ao cabo de vinte anos, os bens foram multiplicados: dispõem de florins honrada e virtuosamente poupados. O Vater dá a benção ao primogénito, de quarenta anos, e à Amalchen, de trinta e cinco, peitos flácidos e nariz avermelhado. Chora, dá-lhes conselhos e morre. O primogénito transforma-se, por sua vez, num virtuoso Vater, e a sua história volta a repetir-se. Aos cinquenta ou sessenta anos, o neto do primeiro Vater dispõe, na verdade, de um capital considerável, que lega ao seu filho, e este ao seu, e assim ao cabo de cinco ou seis gerações, deparamos com um barão Rothschild ou um qualquer Goppe & Ca. Não é um espectáculo grandioso? Um trabalho permanente de cem ou duzentos anos, paciência, inteligência, honradez, carácter, decisão, cálculo, a cegonha no telhado! Que mais querem? Porque nada há superior a isto, e a partir deste ponto de vista começam a julgar o mundo e a castigar os culpados, quer dizer, aqueles que se diferenciam deles um milímetro que seja. Eis a questão: prefiro a agitação do estilo russo ou enriquecer à roleta.»

in «O Jogador» de Fiódor Dostoiévski 

«Eldorado XXI» de Salomé Lamas


Quase todos os filmes da Salomé Lamas parecem conter uma luta com a realidade. Não apenas no sentido em que um documentarista arranca do mundo as suas imagens, mas sobretudo um conflito que implica trazer para a visibilidade uma complexidade que esse mundo sempre contém e encerra. O não visto, o não assumido, o reprimido, o «não representável», o historicamente abafado são os propósitos (paradoxalmente) visíveis de uma realizadora como Salomé Lamas. Contudo, os seus filmes, não se limitam a justapor essas invisibilidades, mutando-as em obras visíveis. Por exemplo, «Eldorado XXI» que logo no título nos indica a visão que parte dos trabalhadores mineiros tem sobre La Rinconada y Cerro Lunar, nos Andes peruanos, não é (apenas) um olhar crítico da miséria laboral e da pobreza dessa comunidade. Desde logo existe um fascínio da autora, que já vem de obras como «Golden Dawn» (em que acompanhou um barco de pescadores holandeses no Mar do Norte) com a dureza do trabalho e seus movimentos rituais. Mas essa dureza também está presente na natureza (por exemplo, «Encounters With Landscape - 3X», filmado na Lagoa das Sete Cidades nos Açores), que Salomé compara, desafia, através do seu próprio métier. Percorrer o espaço com a câmara é um acto de desafio, e ao mesmo tempo de respeito, por essa mesma natureza.

Estes dois elementos, assim como a já referida intenção de explorar espaços/terras de ninguém como forma de os redimir e desafiar o espectador, confluem para este «Eldorado XXI», creio que o seu melhor filme à data. A confluência destes elementos permite ver o filme como uma sucessão de portas abertas. O duelo entre o plano fixo (o equivalente de uma mina do qual o espectador só sai passado quase uma hora) e os espaços abertos é apenas uma dessas portas. Mas está em causa também a tensão entre a imagem (mental) que fazemos de uma comunidade através das suas histórias de miséria ou jingles radiofónicos e as imagens que de facto nos são dadas a ver. E como a realidade é demasiado complexa para se ser (ou ver) apenas uma coisa, ou mesmo uma oposição, «Eldorado XXI» é muitas coisas mais. É um drama sobre a pobreza - por exemplo, a história da senhora com muitos filhos que chega à Rinconada sem trabalho, sem tecto, apenas com tripas para comer. É uma comédia subtil onde as coreografias da dança e das festas locais ou a música pop no meio das montanhas mostram o sorriso onde menos se espera. É um filme de terror onde os relâmpagos da tempestade e as máscaras na noite ganham contornos desconhecidos e assustadores. É ainda um filme que questiona as noções do sagrado e das crenças religiosas, como forma de suster a vida e o trabalho.

Mas em minha opinião «Eldorado XXI» é sobretudo um filme de comunidade: que sabe ouvir as histórias e as presenças das pessoas. Assim como o faz com a natureza que é tudo menos silenciosa e inerte em La Rinconada. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

«Split» de M. Night Shyamalan

Receio que possa passar por recurso um tanto fácil mas não é por isso que deixa de ser menos verdade: a crítica a «Split» de M. Night Shyamalan faz-se com a ajuda do seu próprio tema, o transtorno dissociativo de identidadeTrata-se de um filme que, ao longo das suas quase duas horas, passa por várias peles ou identidades sem que se decida por nenhuma.

Inicialmente, «Split» anuncia-se como um filme de clausura, de espaço confinado. Neste, os seus códigos indicam ao espectador que é a tensão crescente entre as personagens dessa clausura que devem ditar um escape ou fuga. Ora, essa identidade do filme apenas é retomada alternadamente com as suas possibilidades, esmorecendo o nosso investimento emocional nesse choque, ou nessa fuga. Como se Shyamalan dissesse: «fujamos!» e na cena seguinte mostrasse o quão bem se está naquele espaço.

A «segunda identidade» de «Split» é a de filme sobre a explicação detalhada e quase obsessiva acerca dessa desordem da múltipla personalidade. Tem-se referido e com razão «Psycho» de Alfred Hitchcock a propósito da relação entre Norman Bates e a(s) personagem(ns) interpretada(s) por James McAvoy. Contudo, no filme de 1960 o transtorno surge como uma desvelação chocante e aqui ocupa a narrativa desde os primeiros minutos. Além de possíveis diferenças legítimas de ponto de vista, diga-se que Hitchcock percebeu que a premissa científica da mudança de identidade pouco era em si se não acompanhada de uma escalada na tensão. Ora, «Split» é um «Psycho» que quer  menos saber do que acontece a Vera Miles e se preocupa mais em conhecer os detalhes do porquê e do como é que Bates se transmuta na sua falecida mãe. E por isso torna-se cansativo e sobretudo informativo. Derivando desta necessidade de explicação, um filme algo imóvel, demasiado preso à explicação da sua premissa.

Finalmente, o melhor de «Split», ou a sua terceira personalidade, é aquilo que o realizador de «Unbreakable» melhor sabe fazer: a junção de um universo fantástico com uma sensibilidade poética, algures fora deste tempo, mas que ainda nos consegue tocar. O twist final de um filme sem drama, como este, é dessa ordem, apelando a uma violência com respeito pelas agruras da vida. Seja como for já chega tarde para um certo anonimato na realização, e sobretudo, para um filme que se perde na explicação do que é ser-se muita coisa ao mesmo tempo.