terça-feira, 3 de outubro de 2017

O Futebol (2015) de Sergio Oksman


Já passou algum tempo desde que vi este belo filme de Sergio Oksman mas tenho bem presente este plano: de um lado, um hospital de São Paulo onde o pai do realizador está internado, do outro - palavras para quê? - é o "charme do paraíso", um boteco onde se celebra mais um golo do Brasil, na copa que organizavam em 2014. Esta organização, aparentemente estanque, da dor e do êxtase é parte da premissa de O Futebol. Ela é uma docu-ficção que é filha de um filão conhecido no documentarismo, o de procurar através da feitura de um filme, reavivar, reviver, recuperar uma relação familiar moribunda. No caso, o Sergio não via o pai há muitos anos. Emigrado para Espanha, decidiu regressar ao Brasil e ver com o pai todos os jogos do campeonato. Passar um tempo junto, pois nunca houve tempo, e fazer desse tempo uma partilha em filme. E começa a rolar a bola, o desporto-rei está nos ecrãs que não nos mostram os jogos, e nas conversas de automóvel, de bar, no escritório onde o pai Simão trabalha. Oksman não filma o futebol pois este é um jogo de equipa e um dispositivo cinematográfico e emocional para um outro desafio, "jogado" um para um: a recuperação de uma certa intimidade entre um pai e um filho separados.

Se as ruas estão cheias de energia desportiva, depois há a chuva, os espaços aprisionantes do carro, os longos silêncios ou os desvios dolorosas das coisas que não se querem recordar. Não é só o futebol que é um jogo de estratégia. Aos poucos vamos percebendo do contraste entre a festa de todos, e o tempo dolente entre pai e filho, um filme onde as elipses se sentem dolorosas porque irrecuperáveis. O filho está na disposição de tudo fazer para aproveitar o tempo perdido - a sua presença parece o de Nanni Moretti actor, na sua versão mais circunspecta, ou seja, na dos seus "filmes de família" -, já o pai cede um pouco aos caprichos da idade. Mas este jogo de composição entre o ordinário e o extraordinário, entre o documento e a construção ficcional, sofre um forte abalo. Simão morre subitamente durante a rodagem e Oksman não cede à emoção. Antes ficamos com um filme que se vai progressivamente despindo de palavras, que mantém até à última o suspense do "resultado" das suas personagens. Mas o mais extraordinário, a maior lição que a realidade dá após vermos este Futebol, é que as duas metades deste plano que acima vemos se vão unir: morte e derrota humilhante (os tais 7-1 da Alemanha), tudo num só movimento do acaso (uma mise-en-scène verdadeiramente trágica), tudo num só fechar de pano teatral, ficcional.

domingo, 1 de outubro de 2017

Árvore da Cinefilia #21- Gonçalo Soares

Escadinha

Imagino que teria uns quatro anos, porque não me lembro da existência da minha irmã nesta altura (ela nasceu quando eu tinha cinco). Lembro-me do móvel do vídeo e televisão ocupar o espaço no nosso quarto, onde também me lembro da cama dela. Espaço este em frente à parede oposta à minha cama, ao lado desta, uma escrivaninha que nunca usava. Em frente, debaixo da janela, uma arca de madeira onde encontrava sempre um peluche, um urso genérico de pelo seco e expressão estragada. Assustava-me. Por isso voltava sempre a colocá-lo dentro da arca. Acho que a minha mãe nunca percebeu como o odiava, porque voltava sempre a tirá-lo para o deixar em cima da arca. Julgo que estas especulações são factos. Os meus perdões se estiver a inventar.



Era um miúdo acabado de chegar a Torres Vedras, com dificuldade em fazer sestas e amigos no infantário e uma espécie de sotaque nortenho apanhado no ano que tinha passado em Bragança. O meu pai deslocava-se de ano a ano por motivos de trabalho. Em Torres o escritório dele era mesmo ao lado do infantário, por isso passava lá os fins de tarde à espera que ele acabasse o que tinha a fazer. Quando saíamos, passávamos sempre no mesmo sítio: o clube de vídeo, de portas abertas até às 8 da noite no mesmo edifício do escritório dele. Era um sítio estranho. Levar para casa o que queria ver uma vez por dia? Que luxo.

Como é óbvio, o meu pai escolhia sempre as cassetes com pessoas na capa, as das filas do meio, mas eu dirigia-me sempre à fila mais abaixo. A fila única dos “desenhos-animados”. Trouxe para casa vezes infinitas as mesmas cassetes, com os mesmos episódios das mesmas coisas. Na altura não haviam colectâneas integrais de séries, portanto era melhor do que esperar para ver as coisas na TV. Numa dessas vezes escolhi uma cassete das Tartarugas Ninja que já me tinha passado pelas mãos várias vezes. Ao chegar a casa devo-me ter apressado a retirá-la da caixa para a meter no vídeo. Mas notei imediatamente numa diferença. O autocolante colado à face superior da cassete deveria ser colorido. Deveria ser algo como amarelo ou azul, não necessariamente temático do esquema de cores de TMNT, mas deveria ser colorido. Não era. Em vez disso, era um branco, acastanhado pela sujidade, com letras negras numa font nada amigável. Estúpido como era, foi necessário colocar a cassete no vídeo e ver os trailers em live-action para ter a certeza de que aquilo não tinha tartarugas, nem ninjas. Carreguei eject e dirigi-me à minha mãe de cassete na mão.

“Mãe, que é isto?” (eu não sabia ler).
“Hmm...” (a minha mãe agarrou na cassete).
“Diz aqui: O BONECO DIABÓLICO.”
A minha mãe disse-me que se deviam ter enganado no clube de vídeo.
“Não vejas isto. Amanhã vamos trocar.”

Pedi-lhe para ficar com a cassete na mesma. Para a pôr na caixa.

Pela primeira vez senti aquele sentimento que se associa a um objecto proibido. O mesmo que voltaria a sentir alguns anos mais tarde quando na posse de gelado antes da hora de jantar, ou de páginas rasgadas de uma revista porno. Certamente não iria ser naquela noite que iria enfrentar o desmame do meu vício por vhs’s.

“Não pode ser assim tão mau. Uma coisa de adultos.” Inseri a cassete, prometendo-me a mim mesmo que parava se corresse mal. 

O filme começou. Lembro-me perfeitamente da sequência do genérico inicial. Palavras que apareciam e desapareciam sobre imagens de um pedaço de plástico derretido coberto do que tinha de ser sangue. Uma fábrica inactiva onde as máquinas ganhavam vida e faziam com que o plástico e o sangue adquirissem forma liquida para se misturar com mais plástico, de modo a criar um padrão em espiral que depois era moldado numa série de planos pormenor para criar um boneco de cara infantil. 

Link aqui, faça favor (nota: a realidade é um pouco diferente da descrição):

Depois disso sei que parei quando o “boneco diabólico” apareceu na cena seguinte. Tinha voz de adulto. Matou alguém. Era demasiado para mim. Gritei. Saltei para cima do eject. Gritei outra vez. A minha mãe entrou no quarto. A festa toda.

As noites seguintes não foram agradáveis para os meus pais. Infelizmente, obriguei a minha mãe a dormir comigo durante algumas noites. “Infelizmente” porque ela acabou por se fartar. Na noite em que isso aconteceu acordei no escuro e senti que a minha mãe não estava lá. Mas eu estava abraçado a alguém. Querendo controlar-me, senti devagar quem estava ali deitado. Pelo seco. O peluche que voltava sempre a sair do baú. Não foi fixe.

Resta dizer que até aparecer uma Mega-Drive na minha vida comecei a usar muito mais a escrivaninha.

Anos depois, em Loures, olhava com respeito e receio para a enorme secção de terror do clube de vídeo do meu bairro. Lá no meio estava o "Boneco Diabólico". Devagar, deixei de levar sempre as mesmas cassetes, com os mesmos episódios das mesmas coisas e comecei a ver filmes-filmes. Comecei a fazer uma escadinha que ainda não acabou e depois me levou aos filmes de terror e de volta ao "Boneco Diabólico", assim nomeado em Portugal apesar do título original ser Child’s Play 3. The more you know. 

Vi-o com a minha irmã. Ela não teve medo.

Gonçalo Soares *

*"Gonçalo Castelo Soares é realizador sem prémios e aprendiz do skillset necessário para viver a vida satisfeita. Gosta de andar de um lado para o outro e de achar que tem sempre razão. Obviamente não tem sempre razão.”

Para saber mais sobre a rubrica Árvore da Cinefilia.

Edições anteriores:      #1 Francisco Rocha
                                    #2 Pedro Correia
                                    #3 Carlos Alberto Carrilho
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                                   # 20 Carlos Pereira
                                                   

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

domingo, 24 de setembro de 2017

Árvore da Cinefilia #20- Carlos Pereira



Dentro desse núcleo dos filmes que amamos, teremos sempre os filmes que são pontos de viragem e de não retorno. Como se vivêssemos numa casa e descobríssemos portas - antes fechadas, impenetráveis, invisíveis aos nossos olhos - que nos dão acesso a novas divisões e dimensões: passagens para outra percepção das possibilidades do cinema. Talvez sejam estes os filmes da nossa vida, os que nos estruturam o olhar, contendo e expressando a nossa vida interior, os nossos desejos, medos e contradições.  

Tinha três anos quando vi numa sala de cinema o “Bambi”, inscrito na minha linha biográfica como o meu primeiro filme. Não tenho qualquer memória concreta do momento, mas é curioso que a consciência da morte seja, ainda hoje, o tema que mais me move. Filme sobre a passagem do tempo, sobre o processo de luto, sobre a amizade e o amor, “Bambi” parece abranger, nos seus setenta minutos, a fenomenologia de viver no mundo.  

Aos dezassete anos, após ver o “Aurora” do Murnau, desisti da ideia de ser advogado para concorrer à escola de cinema. Lembro-me de ficar tão siderado que percebi que não queria apenas passar a vida a ver filmes, mas também fazê-los. O caminho do cinema é violento, tão construtivo como auto-destrutivo, mas soube desde o primeiro dia de aulas que tinha encontrado o meu lugar. 

Meses depois de ter entrado na escola de cinema, durante uma sessão na Cinemateca, lembro-me de um plano do “The Shop Around the Corner” do Lubitsch que me deixou sem coordenadas. Foi talvez o primeiro plano que me fez pensar no próprio conceito de plano. Percebi que uma imagem podia conter simultaneamente uma lógica estética, intelectual e emocional. Apreendi que havia ordens, sentidos e efeitos dentro da complexa estrutura do cinema. Senti que um plano era uma ação que arrasta consigo ecos e sonhos, jogando com esse momento onde o passado e o futuro colidem. Um plano onde a mão de Klara Novak (Margaret Sullavan) procura, em vão, uma carta numa caixa de correio. Uma mão que abarcava toda a fome afetiva, toda a vontade de encontrar e de ser encontrado, num momento a que se seguiria a desilusão e o vazio. A vida a acontecer, portanto. 

Cada ida à sala de cinema é, será sempre, uma mão à procura de uma possibilidade. 

Carlos Pereira*

*Carlos Pereira é realizador e programador de cinema, trabalhando atualmente como membro do comité de seleção para a Berlinale (Generation).

Para saber mais sobre a rubrica Árvore da Cinefilia.
Edições anteriores: #1 Francisco Rocha
                                    #2 Pedro Correia
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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Coelho Mau - Carlos Conceição


É o primeiro plano de Coelho Mau (2017) e já estamos em viagem. Seguimos uma mota e a câmara passa, de forma elegante, das rodas da viatura e da estrada alcatroada até aos seus dois jovens ocupantes - João Arrais, presença obrigatória do imaginário de Carlos Conceição, e Julia Palha. Ele tem um chapéu de orelhas de coelho, ela uma máscara de oxigénio. Adereços de juventude ou necessidades de idade adulta? O filme, claro, não dará resposta evidente, pois é nesse "entre" que habita. As oposições criativas entre a carne "culpada" e a alma inocente (penso precisamente em Carne de 2010), entre a turbina da juventude e a desaceleração da velhice [o mesmo Arrais e Isabel Ruth em Versailles (2013)], e finalmente, entre o moralismo dos contos de fadas e o fetichismo dos contos de fodas, são tudo terrenos onde Carlos Conceição quer plantar as sementes da sua discórdia cinematográfica.

A atitude não parece ser uma curiosidade por ver o "sangue" que resulta do embate destas realidades tradicionalmente separadas. Trata-se de fazer ver que, como aqui neste seu último filme, não há uma verdadeira separação entre o coelho e o lobo, entre o maravilhoso e o perverso, entre o desejo sexual e o acto de abnegado sacrifício. Por isso é tão importante aquele momento em que a personagem do João, depois de entregar a sua irmã "às feras", cá em baixo junta à sua casa na árvore, imita um mocho e é do bosque que lhe vem a reposta: um uivo de lobo. Ao contrário do que acontece algumas vezes no formato curto - onde cada plano, pelo seu apuro formal, poderia ser em si mesmo uma curta-metragem - em Coelho Mau as personagens vêem o seu universo expandido pela noite que as habita e que aos seus problemas lhes responde. Estamos assim na arte de tornar o curto-longo, na capacidade de sugerir pelos indícios um mundo mais aberto, onde ao espectador "desamparado" lhe vem, simultaneamente, a inocência demencial de James Stewart e o seu amigo em Harvey (1950), a bizarria cool que foi o filme de Richard Kelly em 2001, Donnie Darko, e claro, o monstro nocturno de látex, de O Fantasma (2000), de João Pedro Rodrigues, realizador que é, por cá, o parente mais natural para o seu cinema.

RACCORDS DO ALGORITMO

Amigos, a partir deste mês, no "À pala de Walsh", vou assinar uma nova crónica dedicada a estabelecer relações/raccords entre vídeos e imagens exclusivamente encontradas online. Chama-se "Raccords do Algorítmo" e neste primeiro número, que funciona como uma espécie de prefácio, tentei lançar as bases teóricas do que me motivou a escrever. Nela falo dos problemas da "algoritmização do quotidiano" e ainda encontro um espacinho para escrever sobre a forma como o David Lynch cozinha quinoa, sobre o vídeo mais visto do Youtube, e a maneira como Sternberg dirige os seus actores. Espero que gostem.