quarta-feira, 26 de abril de 2017

Entrevista aos programadores do Lucky Star


Depois da conversa com o realizador José Oliveira, fui ao norte novamente  falar com ele e com o João Palhares sobre o seu cineclube. Fui a uma sessão, «Gremlins 2», comi feijoada minhota e acabámos a falar sobre programação, crítica e formas de ver e pensar sobre cinema. O José e o João, além de andarem nisto há já muito tempo, criaram, há um ano e tal, um cineclube em Braga, o Lucky Star, que tem uma proposta cinematográfica de grande qualidade. Aqui fica a nossa conversa. Os espectadores, presenciais ou online, podem beneficiar das suas propostas, neste exercício de programação algures situada entre o local e o global.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Abelhas tímidas


Quando em modo de socialização - numa festa ou evento qualquer - há sempre aquele momento em que, ou eu ou o meu interlocutor, terminamos a nossa breve troca de palavras com um "até já" ou "vou só ali". As variações possíveis não são muitas. O objectivo é pôr um ponto final na conversa para podermos deambular um pouco pelo espaço, farejar outra vítima, e recomeçar o processo da micro-conversa de ocasião. Mesmo que a maior parte das vezes até possa ficar aliviado com a tormenta que é falar com uma pessoa com a qual, muitas das vezes, não tenho grande familiaridade, há qualquer coisa de triste nestes dia-logos  curtos e performativos que acabam à faca. Se sou eu que estou a gostar da conversa e é a outra parte que a corta é a decepção. Se a coisa se inverte, não há como não sentir um mal-estar, uma consciência pesada pelo descarte, pelo "desculpa lá, mas agora quero mudar de parceiro." Estes ritmos da sociabilidade têm qualquer coisa de polinização, de sexualização das palavras. Somos abelhas tímidas, ferozes, pousando em flores entusiasmantes, decepcionantes. No final só queremos o mel do estímulo intelectual, da oportunidade de nos dar a ver, e, para isso, pouco importa o que fazemos para o obter. Mesmo acabar com o melhor de nós: a troca.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Quando Jean Cocteau se mudou de Paris para uma zona rural de França, chamada Milly-la-Fôret, fizeram-lhe uma entrevista em que lhe perguntavam: «Se houvesse lá um incêndio, que objectos salvava?». «Creio que salvava o fogo», foi o que respondeu. Há 10 anos, quando salvei esta citação para uma caderninho de notas, parecia-me o mais acertado a fazer, manter o fogo. Hoje não mudei de opinião, o fogo é que ganhou diferentes temperaturas.

domingo, 23 de abril de 2017

Árvore da Cinefilia #3 - Carlos Alberto Carrilho


Apesar das centenas de filmes que, ano após ano, acrescento à minha lista de visionamentos, tendo a manter uma certa fidelidade na ordem de preferências. De resto, existem filmes que secretamente amo, mesmo antes de saber que existem, como é o caso de «The Texas Chain Saw Massacre» (Massacre no Texas, 1974), que Tobe Hooper realizara como se fosse um documentário. Com alguma desilusão, descobri que o filme com que repetidamente sonhara, não era o de Tobe Hooper. A violência gráfica atordoante impeliu-me a refugiar em pequenos detalhes que se misturavam com as minhas memórias e que outros não viam ou consideravam irrelevantes. Entre eles estavam porcos a chafurdarem livremente pela casa entre esculturas produzidas com ossos e galinhas encarceradas em minúsculas gaiolas desproporcionadas para o seu tamanho, embalados pelos efeitos sonoros e instrumentos não convencionais da partitura de Tobe Hooper e Wayne Bell. Depois havia a expressão angustiada do monstro, que olhava incrédulo pela janela, enquanto adolescentes imberbes lhe invadiam a casa, sem pedir licença ou bater à porta. Não mais parariam de entrar, cada vez com menos neurónios e mais impulsos libidinosos.

Carlos Alberto Carrilho *

*Carlos Alberto Carrilho, o meu convidado cinéfilo de hoje, é colaborador no site À pala de Walsh, programador no colectivo artístico White Noise, autor do blogue there's something out there, alem de trabalhar há vários anos na Maumaus 

Para saber mais sobre a rubrica Árvore da Cinefilia.
Edições anteriores: #1 Francisco Rocha.
                                    #2 Pedro Correia.

sábado, 22 de abril de 2017

A minha rua é toda esburacada


A minha rua é toda esburacada. Há pedaços de alcatrão arrancados às mãos cheias pelo tempo, parece que fizeram desmaiar um prédio para fazer nascer outro e não há quem não tropece na estrada porque é tudo tão inclinado. Na minha rua o vento passeia, ligeiro, e há cactos gigantes e mesmo cobras. Juro: elas rastejam aos ziguezagues e são intermináveis. Os velhotes vêm passear os cãezinhos e as artroses, um há que arranja tapetes de Arraiolos, para quem estiver interessado. A minha rua é o meu ringue de patinagem, o meu circo de atracções que vê passar as estações: Verão, Outono, Inverno, Primavera. As folhinhas desfilam todas vaidosas por entre o habitual tetris de carros, essas envelhecidas máquinas a suspirar vapores e a suar óleo. Às vezes, quando joga o Benfica, não se ouve vivalma, só os uhhhh.... ahhhh... E quando é golo os pássaros piam e levantam voo, indiferentes. À noite não há pessoas e não há luzes na rua e tudo, parece, continua inclinado, esburacado, assim no breu à espera da claridade. 

Para quando cá mudei desconfiei dos meus passos e da minha voz: chamar por ajuda, ver o mundo, sei lá eu. Entretanto, o tempo altercou-se com o alcatrão, as vozes das poucas pessoas fizeram-se erva e pó. Há um caminho secreto na minha rua que toda a gente conhece e que contorna o capim, um moinho e um gato preto, é uma entrada que dá para uma quinta, com camiões. Percorri umas quantas vezes esse caminho e quando chego ao fim volto para trás, há uma vizinha que espreita por detrás da roupa estendida, uma silva  que me arranha o calcanhar e mais nada. Se querem saber não sei, não sei a partir de quando é que percebi que a minha rua dá para o outro lado da cidade, para o aberto. E que os buracos da minha rua sou eu todo esburacado, sem máquinas de alisar alcatrão, onde, por vezes, chove, e fica tudo intransitável, mas logo de seguida rebentam sementes e depois, claro, recomeça a Primavera.

Circular

«Sempre pensei que não era possível, mas aparentemente é: uma pessoa pode, de facto, nascer e viver toda uma vida até morrer sem ver um Chaplin...» (Por vezes é preciso pôr a circular aí pelo mundo estas frases do João Mário Grilo. Esta ouvia-a ontem no encontro sobre Cinema e Educação, na Cinemateca Portuguesa)

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Vai mas é trabalhar, malandro!


O quem têm estes livros em comum além do facto de hoje me terem chegado à porta? Duas hipóteses: a primeira, dispersão, a segunda, dispersão.