domingo, 30 de julho de 2017

Árvore da Cinefilia #16- Bruno Andrade


Começo pedindo desculpas ao Carlos e aos leitores, pois esta rubrica não tem como ser realmente uma Árvore “da Cinefilia”.

As lembranças vêm e vão e, com elas, algumas palavras – que podem vir em forma de nomes, lugares, rostos e sensações mais ou menos familiares – vêm em seguida... Tudo ainda um tanto embaçado, amontoado, num alinhamento difícil de traçar, ou retraçar.

É necessário começar de algum ponto, entretanto.              
                             
Neste instante a TV está ligada, sem som, no canal TCM. Vejo, de esguelha, o Christine do John Carpenter (logo antes foi exibido, no mesmo canal, Vampiros). Escrevo em um laptop ouvindo pelo Youtube a trilha sonora do Dawn of the Dead do Romero.

Em 2017 um canal de TV que exibe filmes antigos e um computador ligado a uma plataforma de acesso a vídeos possibilitam o contato com algumas peças importantes da minha formação de espectador.

(É estranho pensar que um filme de 1983 que assisti pela primeira vez na TV aberta brasileira em 1995, um filme de 1998 que vi em cinema pela primeira vez em 1999 já são filmes “antigos”, mas esse é um assunto para outro momento, ou talvez para momento algum...)

Mas, voltando, em 1998 esse cenário estava longe de sequer poder ser vislumbrado.

Uma árvore, sabemos, não se constitui apenas pela raiz – ela se forma pelo tronco, com os galhos, as folhas que balançam, caem, e renascem.

Nesse sentido, o que está na raiz da minha formação de espectador é algo muito distinto do cinema, da liturgia da sala, da cerimônia e do ritual que a Maria João Madeira descreveu tão bem. Se for mesmo à raiz, lembrarei muito mais de color bars, caracteres amarelos com avisos referentes aos direitos autorais da fita, trailers com narrações guturais, ruídos e chiados no início e fim de cada gravação...

Enfim, a minha árvore tem a sua raiz não no cinema e, portanto, não na cinefilia, mas nas madrugadas passadas em frente à televisão e nas tardes em que vasculhava prateleiras de vídeo-locadoras, não para encontrar algum filme específico, mas para ser levado por um conjunto de possibilidades, a serem averiguadas e devidamente recusadas ou aceites pelas capas e contracapas, pelas sinopses, pela presença de um ator ou o nome de algum realizador mais conhecido, pelo charme de coisas como a ação do tempo sobre uma capa ou o selo de uma distribuidora, sempre com a certeza de que os próprios filmes me levariam às escolhas certas (ainda era a época de se acreditar em “escolhas”, “certas” ainda por cima, sem falar que não eram os filmes que me guiavam, mas o vídeo e toda a cultura em volta).

Talvez a minha árvore tenha a sua raiz numa boca de lobo, pois havia muito pouca cinefilia propriamente dita na minha relação com o cinema. Eu estava certamente mais para um rato de locadora, ávido, com todos os guias de vídeo e todas as idiossincrasias típicas (saber em qual prateleira poderia encontrar tal fita, e isso em todos os acervos de todas as locadoras à minha disposição – veleidades, sem dúvida, mas que agora parecem tão preciosas...).

Isto me levou a uma série de encontros felizes. Em alguma madrugada de 1993 ou 94 vi o Blow Out do De Palma, filme ideal para justificar a insônia até 3 da manhã, só para poder assisti-lo sem cortes (somente na madrugada um filme com aquele início poderia ser exibido na TV aberta, e foi assim – sem cortes, com o plano-sequência inicial completo, que o vi). Cerca de um ano ou um ano e meio depois foi o Profondo rosso do Argento em um VHS gasto, pré-histórico, escondido em algum buraco empoeirado de uma locadora gigantesca. O choque foi ainda maior, e mais duradouro.

Eu poderia fazer este texto sobre qualquer um desses dois filmes – filmes sobre o ato de ver, filmes sobre a visão como obsessão e guia, como construção e porta aberta à imaginação, como delírio e fascinação. São filmes que deram um sentido à experiência do vídeo, à fantasia do cinema refratada pelos pormenores do analógico, e mais até do que essa filtragem pelo vídeo, deram um sentido a uma maneira de ver e de sentir que parece compartilhada mesmo pelas personagens interpretadas por John Travolta e David Hemmings, cujas percepções já dão sinais de pertencer mais a um domínio eletrônico e virtual que a um domínio concreto e material.

A partir dessas duas experiências agreguei outros autores para fazer companhia a esses dois “pioneiros” (era assim que eu os encarava) do grande campo de batalha analógico: acho que Landis foi o primeiro (com American Werewolf in London), e mais tarde vieram Cronenberg, Carpenter, Romero (e ainda um pouco mais tarde Bava, Fulci, Soavi)...

O cinema e a relação com a sala, com a ampliação da película fotoquímica, o grão ao invés do ruído, era algo que ainda estava por vir e que só viria de forma intermitente: o choque que tive com Blow Out nos idos de 93/94 foi prolongado pelo assombro com Snake Eyes, visto em uma sala de cinema já no fim de 1998; aos nomes de Romero, Carpenter e Argento somaram-se, mais tarde, outros que descobri de forma menos metódica, mas não menos aferrada, como Brisseau, Verhoeven, cujos filmes eu pude ver no cinema, e cujo entendimento deu-se já em um outro contexto.

Talvez a raiz da minha cinefilia se chame, afinal de contas, Alfred Hitchcock, a se julgar por todos esses cineastas que abordam com obsessão e violência o mistério, imaculado ou violado, da imagem interditada.

Mas não é disso que quero falar.

Deve ter sido nas férias de 1998. Estava viajando para a casa do meu pai de ônibus. Ficaria o final de semana com ele, e provavelmente chegaria a tempo de passar na locadora para pegar algum filme.

Meus favoritos, invariavelmente, eram os de terror: as capas extravagantes, o exotismo de alguns, a escatologia de outros, tudo o que poderia seduzir um adolescente estava lá, naquelas capas, naqueles encartes.

A locadora da cidade em que meu pai morava não era muito grande, pelo menos não como as da cidade em que eu morava, mas era aconchegante o suficiente para que um acervo que pendia de forma conveniente entre o banal e o inusitado (foi por esse acervo, aliás, que pude ver o primeiro Chabrol, Ride in the Whirlwind e Iguana, o Pat Garrett do Peckinpah, Casino, o Dangerous Game do Ferrara, o próprio American Werewolf...) parecesse um acervo ideal (embora eu acredite hoje que ele não se esgotou mais cedo aos meus olhos porque eu visitava o meu pai apenas nos fins de semana).

Na prateleira do género “horror” havia essa fita – ou melhor, essa capa, com essa imagem – que tinha tudo o que naquele momento poderia satisfazer um rato sedento como eu: um zumbi de olhos arregalados com um facão no meio do crânio, a boca aberta na tentativa de emitir um grito de dor que parecia não ter como sair, o sangue escorrendo pela testa...

Olho as informações da capa, e surpreendo-me com a duração do filme: 138 minutos. Olho a contracapa: zumbi vestido de noiva, de executivo com terno e gravata, zumbi com pulôver e cachecol. Fechando com chave-de-ouro, a imagenzinha de um policial negro com mais de dois metros de altura e munido até os dentes carregando num carrinho de mão um policial branco baixinho que empunha uma arma...

138 minutos disto?

Não por nada, mas meu pai teve que aguentar muitos fins de semana assim – abandonado pelo filho que tinha ido visitá-lo. Afinal de contas, o companheirismo poderia ficar para outra hora (ainda era a época de se acreditar em “deixar para outra hora”... A não ser que se tratasse de algum filme).

Já falei de choque e de assombro sobre De Palma e Argento. Não vou me repetir, até porque todos que já assistiram a um filme do Romero, e ao Dawn of the Dead em particular, sabem do estado quase hipnótico ao qual a sua Arca de Noé alegórica aliada ao som dos Goblins pode levar.

Não posso dizer que foi a sessão decisiva da minha vida, ou que foi dela que nasceu o que viria a ser a minha cinefilia, ou que foi a partir desse momento que deixei para trás meus hábitos de luminar das prateleiras das locadoras.

Posso dizer, entretanto, que a surpresa e o prazer que Dawn of the Dead me proporcionou quando o vi pela primeira vez são coisas nas quais ainda me fio quando vou assistir outros filmes, novos filmes, independente de procedências e precedências.

Porque talvez numa árvore da cinefilia, mais do que as raízes e as folhas, o que vale são os troncos.

Bruno Andrade*

Bruno Andrade é um dos mais inteligentes críticos de cinema brasileiros da actualidade. Além de editor da revista de cinema Foco, manteve durante vários anos um dos mais interessantes blogues de cinema em língua portuguesa o signo do dragão.


Para saber mais sobre a rubrica Árvore da Cinefilia.
Edições anteriores: #1 Francisco Rocha.
                                    #2 Pedro Correia.
                                    #3 Carlos Alberto Carrilho
                                    #4 Álvaro Martins
                                    #5 Leandro Schonfelder
                                    #6 Samuel Andrade
                                    #7 Vítor Ribeiro
                                    #8 José Marmeleira
                                    #9 Maria João Madeira
                                    #10 João Lisboa 
                                    # 11 Ricardo Vieira Lisboa  
                                   #12 Daniel Curval  
                                    #13 Inês N. Lourenço
                                    # 14 Alexandre Andrade
                                    # 15 Vasco Câmara

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