segunda-feira, 3 de julho de 2017

Eu não ia escrever sobre Paterson, mas eu não ia muita coisa...


Tinha dito a mim mesmo que não ia escrever sobre "Paterson" de Jim Jarmusch. Não gosto de ser visto como lamechas, não gosto de ser colocado no grupo daqueles que não têm activo o detector de metais do cinismo. Há uma linha ténue que separa a honestidade da pinderiquice e ela pouco ou nada tem a ver com fondus ou planos de animais como forma de trazer à tona o seu elevado grau de "ahh". Essa linha é sobretudo delimitada pelo lugar de onde se filma (de onde se escreve). Quando se arrancam planos de um mundo para que eles funcionem como espelho da nossa genialidade, estamos apenas a ser banais, pindéricos. Quando depois do domingo, só vem a segunda feira, quando a seguir a rasgar o que escrevemos continuamos a escrever, quando de facto nos emocionamos com um animal, isso não deve ser escondido como sinal de fraqueza dos tempos. Deve apenas ser removida toda a sua camada de delicodoce (isto é,  a sua capacidade de produzir um efeito) e colocar tais actos num projecto de passagem do tempo, de filmar para filmar, de filmar o que se ama, sem saber se se vai provocar o elán ou o vómito. Jarmusch há muito conquistou esse espaço que não é já o lugar onde o seu cinema se deu à luz (a maternidade da modernidade, das rimas livres), mas um local contemporâneo, onde o eu significa eu, onde se resgatou esse pronome pessoal às garras da adolescência e se pinta o mundo e os prazeres deste, a belo prazer. Facilidade? O contrário: auto-disciplina, rigor, detalhes, subtileza. Creio que foi Ralph Waldo Emerson quem escreveu: "a vida é uma tempestade de quimeras e o único teste que conheço consiste em respeitar a hora presente." Paterson é isso, um filme que testa a vida, que respeita o presente. 

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